A PATA NO CHOCO. SEGUNDA EDIÇAÕ. PORTO, 1827: Na typ. de Viuva Alvarez Ribeiro & Filhos. _--Com licença.--_ Vende-se por 50 reis na mesma Imprensa, e na loja da Fama ás Hortas. Duas Comadres muito amigas, _Maria Pires_ e _Tereza Fernandes_, que por nome naõ percaõ, topando-se hum dia no solheiro, travaraõ ateada palestra ácerca de huma _Pata no chôco_; assumpto este que, parecendo esteril de sua natureza, ellas souberaõ enriquecêllo com toda a loquéla de tagarelas perfeitas. Por tal motivo, e tambem por mostrar aos curiosos leitores as superstições e ridicularias em que se occupaõ mulheres, aqui vai huma copia fiel daquella pratica extravagante. _Maria Pires._--Eu, Sr.ª Comadre, ando taõ consumida por causa da minha Pata, taõ affligida estou, que naõ lhe digo nada!.... _Tereza Fernandes._--Pois que lhe assuccedeo com a sua bixinha, que taõ boa criadeira era? _Pires._--Que me havia de assucceder! cousas dos meus peccados, dos meus grandes peccados, que, sendo sem conta, como na verdade saõ, naõ podem deixar de me acarretar mofinas a montes! _Fernandes._--Aposto eu que a rapoza lhe apanhou a sua joia, ou alguma zabaneira nossa visinha, que será o mais certo, visto naõ haver já temor da justiça de Deos, nem da d'El-Rei; cada hum abafa o que póde, e quem mais abafa melhor lhe vai: como tirem boas provas da surripiadela certos lambões de lingoa grande, logo he tal a mingoa de provas, que naõ ha huma para huma mézinha; ficando o ladraõ rico, e abençoado como o nosso Pai Abrahaõ; e quatro figas para os que foraõ tosquiados ou esfolados, quando Deos quer. Porém descance, minha Comadre, eu lhe responso a Pata; e tenha muita fé em que ella ha de apparecer, se naõ tiver cahido em maõs apegadiças, pois ahi pouco poder tem as minhas rezas; nem ellas me trazem sardinha que o gato leva: mas entaõ iremos fallar com aquelle corpo aberto, que tudo sabe e tudo adivinha, para ao menos sabermos de quem nos havemos de queixar, e naõ andarmos ás cegas botando juizos temerarios. _Pires._--Naõ vai por ahi o gato ás filhozes: antes isso fôra; pois se quer estariamos desempeçadas d'outras penas, ainda maiores. Naõ, Snr.ª minha, a Pata naõ foi furtada; está, sim, no chôco ha hum mar de dias, sem acabar de tirar os ovos, encarriçada por hum tal feitio, que naõ bebe nem come cousa que Deos crie; em fim parece Moura encantada: tantas saõ as negras das minhas culpas! Ora, tomando eu isto por caso agourento, ando estarrecidinha de todo; porque, segundo a madorna da Pata e sua longa choquice, arreceio, com muita razaõ, que ella esteja tirando algum Bicho de Chaves, que nos ponha de máos pezares, e a todos nos pape vivas e inteiras! _Fernandes._--Appello eu para Deos! Sino salomaõ nos acuda! Pois ha de essa excommungada ave gerar similhante bicho! Só se fôr o diabo em figura de Pata! Sume-te, porco; vai-te para as areias gordas, naõ atormentes a christandade com os teus desaguizados e malfeitorias! Quanto a mim, Snr.ª Comadre, esses seus temores saõ puras vanidades; mas, pelo sim pelo naõ, seria bom desfazer-se da excommungada e mais dos seus ovos, sem amor algum a taes embelecos; deixallos ir com a trupia; arrenego da tigelinha d'ouro em que hei de cuspir o sangue. _Pires._--Tem-me vindo a repiques de fazer o que Vossa Mercê diz; mas quem sabe se bulir-lhe será peor, e se já debaixo dessa malfadada Pata estará o bicho sahido, o qual, mexendo-lhe eu, me trafegue logo para as suas entranhas danadas, sem me deixar dizer esta boca he minha; pois tal será elle, que já ao romper da casca faça destas trepolías! Na verdade lhe digo que trago o meu coraçaõ negro como a noite escura: tal o tenha quem me quizer mal! E tudo isto, aqui para nós, vem-me de hum sonho de má estreia, que, se fôr verdadeiro, qual por nossos peccados será, temos ahi a fim do mundo! _Fernandes._--E que sonho foi esse taõ desestrado? _Pires._--Ai! naõ he bom assoalhar similhantes cousas! nada queira saber, naõ aperte comigo, por vida sua lho peço, pois temo conte a outrem o que eu lhe disser, ou de alguma falla mal considerada, por onde tudo se venha a descubrir. Olhe, Snr.ª Comadre, por hum cravo se perde huma ferradura, por huma ferradura hum cavallo, por hum cavallo hum cavalleiro, por hum cavalleiro huma praça, e por huma praça hum reino; isto lhe digo eu para ficar entendendo que o descuido de huma palavra póde pôr o meu sonho nas bocas do mundo, e alevantarem-se daqui muitas carrapatas, de que o Senhor me defenda! _Fernandes._--Nisso diria Vossa Mercê bem se eu fosse de geraçaõ chocalheira; mas cá naõ ha desses achaques, embora o digamos: e ainda que lá dizem, da má mulher te guarda, e da boa naõ fieis nada, mulher eu sou capaz de ter maõ nas agoas, como as pintadas em parede. Com que, minha amiga, desabafe comigo com todo o desafogo, que eu lhe prometto, á fé de christã, a ninguem abrir boca; só se fôr á nossa amiga Cascalha, por ser cá do peito: quem me quer bem, diz-me do que sabe e dá-me do que tem. Mas essa mesma, com ser hum poço de segredos, como nós sabemos, ha de jurar guardar este _em verbo Saçardotes_; senaõ nada feito. _Pires._--Sendo assim, naõ terei duvida em lhe contar o caso; porém veja primeiro o que me promette: antes que cazes, olha o que fazes. _Fernandes._--Póde fallar, está dito; faça de conta que está aos pés do seu Padre Confessor. _Pires._--Pois, Snr.ª minha, sonhei eu que essa amaldiçoada Pata já tinha tirado os ovos, e que de hum delles sahira huma serpentarrona, cousa espantosa! ou naõ sei que maldita casta de monstro, pois se compunha de partes taõ estranhas entre si e desconcertadas, que fazia dar volta ao miolo; até ali havia unhas de leaõ e esporões de galo! Entaõ aquillo, fosse o que fosse, tinha tres a quatro cabeças, ou cinco seriaõ ellas, valha a verdade, que eu com o meu susto poder-me-hia enganar na conta: o certo he que huma das taes se cobria com huma grande casca, bem similhante no feitio a huma cousa que eu já tenho visto, mas poucas vezes, por isso naõ posso dizer o que he; posso, sim, affirmar ser cousa de monta: o Senhor bem me entende.... Todas as outras cabeças eraõ de catadura terrivel; porem a daquella faria erguer os cabellos a hum calvo, atirando-lhe com a peruca até essas estrellas; e bem se via que era nella aonde o monstraõ diabolico tinha o maior poder da sua peçonha. Esquecia-me dizer que este demonio, sumido seja elle, disfarçava as desformidades do serro medonho com huma capa lustroza, assim a modo de tartaruga, ou de outra concha de além mar, mas nem tudo que luz he ouro! Ora dos outros ovos sahiraõ varias salamandras nojentas e lagartos feios, todos taõ arrastados como o credito de Judas traidor. E ha de Vossa Mercê cuidar que haveria bulha entre a bicharada e o bicho grande? Pois naõ Snr.ª; todos elles estavaõ muito de mano a mano: taõ bom he o diabo como sua mãi. _Fernandes._--Eu estou a tremer com similhantes bicharocos! A benta hora seja comnosco! Isso naõ deve de ser cousa de Pata! _Pires._--Sim, Snr.ª, he o que lhe digo; foi a mesma Pata que os pôz a todos, taõ real e verdadeiramente como andar eu tolhidinha, azangada, levada das más horas; e mais defumo-me a miudo com alecrim colhido em a noite de S. Joaõ; como em jejum arruda e alho; e trago ao meu pescoço maõ esquerda de toupeira, com aza de morcego macho, nascido á meia noite em ponto de huma terça feira, e apanhado ao sabbado em encruzilhada ao pino do meio dia; e ainda assim Deos sabe o que por cá vai, esperando a todos os instantes vêr por obra esse mofino sonho! _Fernandes._--Ai! que te eu vejo tal, morro em antes de me estrancinhar essa cousa ruim! Grandes malquerenças e grandes diabruras nos andaõ por casa: cégo he quem naõ vê por hum crivo! A minha franga, Snr.ª Comadre, tambem he hum signal dos muitos feitiços que nos perseguem; pois, sendo ella d'antes, como na verdade era, cristalhuda, azivieira, sacudída, e em fim hum pino d'ouro, taõ máo olhado lhe deraõ que, mettendo-se-lhe por entre os voadouros huns taes piolhos endiabrados, nunca mais foi senhora sua a pobrezinha da bicha, nem mais pôde alevantar a aza. _Pires._--Cada hum sente o seu, e Deos o de todos. Mas a Pata no chôco, Snr.ª Comadre, he que tem rabo de cabra; taes diabruras saõ as peores que podem ser, pois a toda a gente ameaçaõ. _Fernandes._--Seria acertado fallar Vossa Mercê com alguma feiticeira, mestra no seu officio, para vêrmos a volta que ella dava a similhantes feitiçarias: as cousas desfazem-se por onde se fazem. _Pires._--Ja fui fallar com a Saparra a este mesmo respeito; e pagando-lhe adiantado, porque mais vale hum toma que dous te darei: contei-lhe depois tudo, tim tim por tim tim, e ella me disse que o infernal aborto da Pata saltaria pelo arco da velha, e feria destemperos que naõ estaõ em livros, se naõ buscassemos logo para guarda nossa hum caõ negro que tivesse passado as agoas do mar, e tivesse visto muitas castas de gentes: disse mais que o bom do caõ havia de ser fiel, animoso, arrojado e botadiço, capaz de se encrespar com leões; e que, se tal o pudessemos haver, veriamos desapparecer a Pata com a sua ninhada. Ora, eu já tirei inculcas por esse mundo de Christo, e com effeito daõ-me noticias de hum caõ bem estreado que parece vir a pêllo para o intento; he mesmo, mesmo qual se requer; mas naõ me sabem dizer o modo d'elle nos vir á maõ: e assim estou vendo quando sahe o bicho, e nos faça em bocados, sem nós termos quem nos acuda. _Fernandes._--Nem fallar nisso he bom, Snr.ª Comadre! os dentes me batem, e os cabellos se me arripiaõ! Olhe, sabe que mais? naõ tomemos as dôres antes do parto; mate-se o diabo, naõ nos matemos nós: se por ventura depararmos com esse caõ bem fadado, fortuna será nossa; e se naõ, encommendemo-nos ás almas santas, e esperemos pelo que vier: em quanto o páo vai e vem, folgaõ as costas. Com pouco mais ergueraõ maõ as Comadres do assumpto da _Pata no chôco_; e com a ligeireza propria do sexo, passáraõ a outros entretenitnentos ainda mais ridiculos; salvo huma adivinhaçaõ, d'entre varias que disseraõ, pois essa naõ me pareceo de taes cabeças, e por isso ei-la ahí para desafiar os intelligentes, e affinar as intelligencias. _Adivinhaçaõ._ He minha patria o Brazil, De lá vim a Portugal Ser pizada e destruida; E sendo eu joia Real, A sorte cheguei a ter De me ver mesmo vendida, Como artigo mercantil, Para alguem se enriquecer. Huns virtude me attribuem, Outros me reputaõ vicio, E como vicio me excluem; Mas destes, a seu pesar, Muitos ha que beneficio Vem por fim em mim buscar. Bastante gente ha tambem Que naõ me quer mal nem bem. Huma irmã naõ lonje tenho Que a este reino he vedada, E o tenta com grande empenho; Mas por ser mui altanada, Ganha pouco neste jogo. Coube-nos por nosso mal A sorte dura e fatal D' ambas soffrermos o fogo. Alto lá, Snrs. adivinhões; a seu tempo se colhem as peras, dizem as Comadres: suspendaõ o seu juizo, se elle ha de ser prejuizo; e tenhaõ a paciencia de esperar que a advinhaçaõ se explique em hum folheto, que fica para imprimir-se, intitulado==_Grandes Mercês do Genio Tutelar das Bagatelas._== Das adivinhações omittidas na primeira ediçaõ desta obra, a que tem mais geito he a seguinte: Fui expedita algum dia Em bellos fructos mostrar: Aos olhos dei alegria, E consegui regalar Com largueza muita gente: Fui liberal finalmente; E, por huma sorte impia, Vou-me deixando de o ser. Hum mal me veio tolher, Pelo qual me desconheço; Pois quebrantada me sinto, E os corações escureço. Dizem que bando faminto. De bichos vís me faz isto; Que elles, a mim apegados Com afêrro nunca visto, Quanto podem, porfiados Me privaõ de fazer bem. Mas o que he certo, e ninguem De modo algum negar ousa, He o estar eu demudada, E infelizmente azangada Por huma terrivel cousa, Que poucos annos naõ tem. A seu tempo se colhem as pêras, tornaõ a dizer as Comadres; ninguem adiante juizos, e menos dê com a lingua nos dentes, até vir tudo explicado no Folheto promettido. --- Provided by LoyalBooks.com ---